
No segundo dia do NOS Alive'23, destacamos o alinhamento do Palco Heineken, uma vez mais, e um segredo não tão bem guardado no Palco Coreto, que conta com a curadoria da agência Arruada. Em mais um roteiro em busca propostas alternativas, viajamos de Inglaterra ao Canadá e regressamos, depois, a Portugal, antes de dar um salto à nossa vizinha Espanha. Tudo isto, sem sair, claro está, do recinto do festival.
Relacionado: NOS Alive'23: Destaques dia 1
Naturais de Reading, no Reino Unido, os The Amazons são um quarteto de indie rock, formado por Matt Thomson, guitarra e voz, Chris Alderton, guitarra, Elliot Briggs, baixo, Joe Emmett, bateria, formado em 2014. Foi deles a responsabilidade de dar início ao segundo dia do NOS Alive, no Palco Heineken, onde acabamos por voltar, depois do sucesso do primeiro dia. Com três discos editados, foi do mais recente How Will I Know if Heaven Will Find Me? (2022) que saiu o primeiro tema, Bloodrush, nesta passagem pelo festival. Os acordes, ligeiramente mais pesados, a fazer lembrar os seus conterrâneos Arctic Monkeys, que hoje sobem ao Palco NOS, aguçaram o apetite do público. De Future Dust, editado em 2019, 25 foi a música escolhida para dar continuidade ao espetáculo rock que preenchia, ainda que durante a tarde, a plateia do Palco Heineken. "É sexta-feira, meu!", disse o frontman Thomson.
Relacionado: Começa amanhã o NOS Alive'23
In My Mind, do homónimo The Amazons, lançado em 2017 e bastante aclamado pela crítica britânica, terá sido o ponto alto do espetáculo, que se manteve sempre com riffs fortes, situados algures entre o indie rock e o punk rock, assim como Mother. Matt Thomson, envergando um blazer, mostrou-se sempre muito comunicativo e afirmou, por várias vezes, "nós amamo-vos" e "muito obrigado, pelo vosso tempo". Os mais distraídos terão, porventura, ficado confusos com o posicionamento da banda, mas todos pareceram satisfeitos com o resultado, pelo abanar de cabeças que víamos aumentar a cada música, já que a performance foi uma autêntica lição de rock and roll. Para o fim, ficou reservado outro hit do grupo, Black Magic, que confirmou o anunciado - nesta estreia em Portugal, os The Amazons conquistaram o público sem grande dificuldade. O grupo mostrou maturidade, assertividade e segurança em palco.
Mantivemo-nos no mesmo palco, para, logo de seguida, após a troca de backline, assistir a mais uma estreia em território nacional. City and Colour, alter ego de Dallas Green, é um projeto de folk rock com uma vasta discografia - o primeiro disco, Sometimes, remonta a 2005. Comin’ Home, desse álbum, e Meant To Be, do recente The Love Still Held Me Near (2023), foram o tiro de partida, embora o arranque não tenha sido o melhor. Do lado do público, não saiu som do PA, embora a banda estivesse a tocar e a cantar, o que obrigou à entrada da equipa técnica, para a resolução do problema - cerca de dez minutos depois, o som estava de volta. Nesse momento, numa breve troca de palavras com os fãs, e em resposta a um cartaz que exibia a mensagem "17 anos à espera", o músico confidenciou que a banda não veio a Portugal mais cedo, porque ninguém os convidou. "Talvez, agora, eles nos convidem mais vezes", finalizou, com algum riso à mistura.
Relacionado: NOS Alive’23: Programação completa
Thirst, The Love Still Held Me Near e Two Coins foram as malhas que se seguiram, sempre com um registo próximo do público, com palavras de amor e esperança, associadas às letras dos temas apresentados, mas sem perder a essência folk rock que caracteriza os City and Colour. "Alguns dizem que o rock está morto, mas nós temos algo a dizer sobre isso", afirmou Green antes de se atirar a Weightless, de Little Hell (2011), num estilo mais groovy, que contrastou com o toque pop de Underground. Em boa verdade, a experiência deste espetáculo foi algo de único. Encontramos uma banda serena, a fazer boa música e em total comunhão com o público. O imenso aplauso no final do concerto demonstrou, claramente, que o regresso deverá ser mais célere que a estreia - ninguém vai querer esperar mais 17 anos para voltar a ver os City and Colour e a sua enorme generosidade. Gratidão era o sentimento generalizado no público, após este momento de partilha, no segundo dia do NOS Alive'23.
Depois de uma pequena pausa para jantar, que também precisamos, demos uma espreitadela ao Palco Coreto, que conta, uma vez mais, com a curadoria da Arruada, para assistir, às 21:00, à atuação de João Borsch. Com novo álbum editado este ano, É Só Harakiri, Baby saiu no final de maio, a curosidade para assistir ao vivo a temas como Nunca Consigo Recusar e, claro, Pólvora! era grande. Uma Noite Romântica com João Borsch (2021), num outro registo, foi o disco de estreia do músico nascido no Funchal, que colocou à vista a sua forma de expressão musical, iniciada, ainda jovem, numa banda local de thrash metal.
Relacionado: NOS Alive recebe Jorge Palma
O artista apresentou-se em palco com uma estética arrojada, envergando um vestido branco e um véu, mantendo a habitual narrativa de personagens definidas, embora sendo, ao mesmo tempo, irónico, folião, escandaloso e arrasador. Fez-se, também, acompanhar de uma dupla de guitarristas e um teclista, num espetáculo que foi, com toda a certeza, inovador e intenso, e que tornou evidentes as consequências de uma vida de vícios, insegurança e auto-destruição, da personagem interpretada pelo músico. Em Bárbara e Nunca Consigo Recusar, um dos temas que nos levou ao Palco Coreto, João tocou bateria, complementando a banda que o acompanhava, durante alguns momentos. Do alinhamento fizeram, ainda, parte os temas A Emancipação de João Borsch, Deixa-me Em Paz (Chagas) e Boca Cheia, porventura os mais populares, a julgar pelo número de ouvintes no Spotify.
Morad estreou-se, à semelhança dos restantes, no NOS Alive, mas não em Portugal. O rapper espanhol é um dos maiores fenómenos musicais da atualidade, graças à internet e às redes sociais, que alimentam toda uma geração que se identifica com as letras criadas pelo músico e que vê nele uma referência na cena urbana. Pelo fenómeno que é e pelas multidões que habitualmente arrasta consigo, demos uma oportunidade a Morad e não nos arrependemos. O artista apresentou-se em palco acompanhado por um DJ e por sete elementos do seu staff, que entravam e saíam, consoante os altos e baixos da atuação. Com as letras na ponta da língua, os festivaleiros mais resistentes que, por volta das 03:00 da manhã, ainda preenchiam a plateia do Palco Heineken - e não eram poucos, o espaço estava bem composto -, ficaram eufóricos quando ouviram Pelele, Motorola e Sigue.
Relacionado: NOS Alive revela Palco Coreto
Preocupado com o bem-estar do público, Morad aproveitou uma pequena pausa e apelou para que fosse criado algum espaço na zona da frontline, que permitisse respirar e onde todos estivessem confortáveis. O músico aproveitou, ainda, para desfazer a grande dúvida sobre se escolheria Espanha ou Marrocos, enquanto pátria, quando se apresentou com as bandeiras dos dois países na mão, dizendo que "uma é de onde a minha família é [Marrocos] e a outra é de onde eu sou [Espanha]", afirmou. Se Grita, outro sucesso de Morad, voltou a pôr toda a gente a saltar, numa atuação que se esgotou em pouco mais de meia hora, o que consideramos curto, já que o artista tem discografia para algo mais - dois discos editados e vários outros singles na bagagem. Apesar de curto, o espetáculo do rapper espanhol foi uma experiência diferente, que consideramos fora da caixa pela atitude, pelo o posicionamento e, uma vez mais, pela forma como tocou o público.
Chegados ao final do dia, voltamos a ter a sensação de dever cumprido. Perante um dia esgotado para assistir a nomes maiores, como Arctic Monkeys, Lil Nas X ou Lizzo, todos grandes concertos, sem sombra de dúvida, foi, uma vez mais, possível encontrar pequenos segredos, eventualmente não tão bem guardados quanto isso, no alinhamento dos restantes palcos do NOS Alive'23. A programação, é claro, permite isso, mas é essa liberdade de escolha e a surpresa ao virar da esquina, que tornam este festival especial. A magia acontece, também, em palcos com artistas de menor notoriedade e não há problema nenhum com isso.
Foto: Ambiente @NOS Alive - © José Fernandes
Galeria: The Amazons @NOS Alive - © Hugo Macedo
Galeria: City and Colour @NOS Alive - © João Silva
Galeria: João Borsch @NOS Alive - © Mariana Silva
Galeria: Morad @NOS Alive - © Hugo Macedo